A "crise", ou melhor, a palavra "crise", tem andado a tapar uma outra crise a meu ver bem mais grave. Já naquele tempo em que os animais falavam - a bem dizer no tempo em que Marx falava, esse grande animal diria alguns - as "crises" tinham propósitos bem definidos. Eu, mero estudante e subversivo nas horas vagas, nunca serei um propósito de qualquer "crise" (a não ser as minhas crises amorosas, e mesmo essas...). Nem eu nem nenhum de vós leitores, nem nenhum de vós não leitores. A crise, como se sabe - saber ancestral - serve, por ela ou pelos seus criadores, para aumentar as diferenças entre ricos e pobres, patrícios e plebeus, servos e senhores,... Todo esse comboio gravado na cassete bem gasta da luta de classes e dos manifestos subjacentes. Esta "crise", com o propósito referido (aumentar as diferenças, como todas as crises do género capitalista desta) esconde porém a outra crise. É, em boa verdade, uma crise nos produtos de limpeza. As cassetes gastas não podem apanhar pó. Com pó é difícil restaurar, porque, obviamente que com pó não se pode ver o material a restaurar. Tem de estar presente, primitiva, violenta e inocente. Presente para não ser lembrada mas reconhecida. Primitiva para ser justa; se a justiça não fosse primitiva não haveria "fé", e ao que consta a "fé" é uma das actividades mais antigas da humanidade racional (para além de outras...). Violenta, sim; a violência existe e, em vez de a negarmos - tapar areia com os olhos - é, por certo boa ideia utilizá-la para resolver crises, para que a luta contra a crise seja presente e primitiva (reconhecida e justa!). E inocente, inocente como Afrodite, se é que me faço entender sem entendimentos impróprios...
É uma crise de valores, porra! Uma crise de comodidade demasiada, de inercia do tempo das vacas gordas, de falta de inimigo e de inimigos por todo o lado: o sistema reles e mesquinho que adoramos, que nos dá as porcarias tecnológicas para entreter a calma, que nos vende a nós mesmos por meia dúzia de cêntimos (nem tostões são, e viva a globalização), que nos faz sentir civilizados na nossa ignorância.
barthes
Há 14 anos
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