Até finais de Agosto pode visitar-se na Sociedade Portuguesa de Autores uma exposição sobre o poeta Ary dos Santos, lembrando os 25 anos da sua morte. É hábito dizer, de alguém que morre, que faz falta. Outro poeta - Fernando Pessoa - dizia: " Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente / Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém... / Sem ti correrá tudo sem ti". Mas contradizendo-o, eu acho que Ary fez mesmo falta. Com ele, Portugal seria diferente: pouco diferente, certamente. Talvez só alguns pormenores pouco perceptíveis. Mas, lembrando a tal teoria do bater de asa da borboleta, nunca se sabe o que esses pormenores poderiam provocar. E digo isto porque, para além de um poeta notável, era um agitador permanente. Onde estava nascia sempre um debate, sempre eram levantadas novas interrogações, a indiferença ficava, pelo menos provisoriamente, sem lugar para se instalar. Para a sua voz possante e o seu discurso inflamado convergiam as atenções do grupo onde ele se encontrasse. Quando se afastava ficava-se a discutir o que ele tinha dito. O modo como trabalhava para escrever letras de canções, muitas das quais ganharam força e poesia autónoma, sempre me deixava perplexo. Enquanto com um dedo da mão esquerda rodava o gelo dentro do gin tónico, com os dedos da outra mão contava as notas de cada frase musical para depois as substituir por sílabas de frases mágicas e inesperadas. Nunca consegui perceber como conseguia, usando um processo tão mecânico, construir textos de tão grande qualidade. Muitas vezes insisti para que ele, em vez de tamborilar com os dedos no tampo da mesa, cantarolasse a melodia para lhe sentir o ritmo e então passasse para as palavras, como faziam outros letristas. A isso respondia qualquer coisa como "olha menino, eu não sei cantar e tu não sabes escrever poesia, por isso... cala-te e toca lá mais uma vez a melodia".
Por Pedro Osório, in 30Dias em Oeiras, Roteiro da C.M. de Oeiras, Jun 2009
Por Pedro Osório, in 30Dias em Oeiras, Roteiro da C.M. de Oeiras, Jun 2009