domingo, 21 de junho de 2009

"Ary dos Santos, Ary de Sempre"

Até finais de Agosto pode visitar-se na Sociedade Portuguesa de Autores uma exposição sobre o poeta Ary dos Santos, lembrando os 25 anos da sua morte. É hábito dizer, de alguém que morre, que faz falta. Outro poeta - Fernando Pessoa - dizia: " Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente / Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém... / Sem ti correrá tudo sem ti". Mas contradizendo-o, eu acho que Ary fez mesmo falta. Com ele, Portugal seria diferente: pouco diferente, certamente. Talvez só alguns pormenores pouco perceptíveis. Mas, lembrando a tal teoria do bater de asa da borboleta, nunca se sabe o que esses pormenores poderiam provocar. E digo isto porque, para além de um poeta notável, era um agitador permanente. Onde estava nascia sempre um debate, sempre eram levantadas novas interrogações, a indiferença ficava, pelo menos provisoriamente, sem lugar para se instalar. Para a sua voz possante e o seu discurso inflamado convergiam as atenções do grupo onde ele se encontrasse. Quando se afastava ficava-se a discutir o que ele tinha dito. O modo como trabalhava para escrever letras de canções, muitas das quais ganharam força e poesia autónoma, sempre me deixava perplexo. Enquanto com um dedo da mão esquerda rodava o gelo dentro do gin tónico, com os dedos da outra mão contava as notas de cada frase musical para depois as substituir por sílabas de frases mágicas e inesperadas. Nunca consegui perceber como conseguia, usando um processo tão mecânico, construir textos de tão grande qualidade. Muitas vezes insisti para que ele, em vez de tamborilar com os dedos no tampo da mesa, cantarolasse a melodia para lhe sentir o ritmo e então passasse para as palavras, como faziam outros letristas. A isso respondia qualquer coisa como "olha menino, eu não sei cantar e tu não sabes escrever poesia, por isso... cala-te e toca lá mais uma vez a melodia".

Por Pedro Osório, in 30Dias em Oeiras, Roteiro da C.M. de Oeiras, Jun 2009

domingo, 14 de junho de 2009

Boletins de Voto em Braille

Nota:
Este artigo foi publicado primeiramente aqui e a presente versão tem algumas clarificações, todavia o estilo permanece o mesmo não obstante a diferença entre os dois espaços.

Não sei se alguém deu conta mas nas últimas eleições europeias existiam o que eles chamaram de “boletins de voto em Braille”. Tratavam-se de meras folhas escritas em braille, pregadas na parede das cabines de voto, com a listagem dos partidos e coligações concorrentes, dispostos, suponho eu, pela mesma ordem pela qual estavam no boletim “original”. É melhor do que nada mas a falta de confidencialidade do voto continua lá e não me parece haver melhoras, nem grandes ideias para melhorar. Terá sempre de vir alguém de confiança do utilizador de braille (ou bem vistas as coisas com qualquer outra incapacidade que não permita fazer a cruz no quadradinho passa-se o mesmo) que conheça a sua intenção e faça o gesto por ele. Solução definitiva penso que só com o voto digital. Por muitas alminhas que estejam contra será, por certo, a via mais fácil. Claro que temos de ter em conta que nem o Magalhães é acessível (tenho de escrever sobre isso algures)… Boletins reais em braille seriam, igualmente, uma piada… Basta reparar na quantidade de utilizadores de braille por mesa de voto, a confidencialidade vai logo por água abaixo outra vez. Mas a história toda está aqui:
http://www.lerparaver.com/node/8660