domingo, 12 de abril de 2009

Crise

A "crise", ou melhor, a palavra "crise", tem andado a tapar uma outra crise a meu ver bem mais grave. Já naquele tempo em que os animais falavam - a bem dizer no tempo em que Marx falava, esse grande animal diria alguns - as "crises" tinham propósitos bem definidos. Eu, mero estudante e subversivo nas horas vagas, nunca serei um propósito de qualquer "crise" (a não ser as minhas crises amorosas, e mesmo essas...). Nem eu nem nenhum de vós leitores, nem nenhum de vós não leitores. A crise, como se sabe - saber ancestral - serve, por ela ou pelos seus criadores, para aumentar as diferenças entre ricos e pobres, patrícios e plebeus, servos e senhores,... Todo esse comboio gravado na cassete bem gasta da luta de classes e dos manifestos subjacentes. Esta "crise", com o propósito referido (aumentar as diferenças, como todas as crises do género capitalista desta) esconde porém a outra crise. É, em boa verdade, uma crise nos produtos de limpeza. As cassetes gastas não podem apanhar pó. Com pó é difícil restaurar, porque, obviamente que com pó não se pode ver o material a restaurar. Tem de estar presente, primitiva, violenta e inocente. Presente para não ser lembrada mas reconhecida. Primitiva para ser justa; se a justiça não fosse primitiva não haveria "fé", e ao que consta a "fé" é uma das actividades mais antigas da humanidade racional (para além de outras...). Violenta, sim; a violência existe e, em vez de a negarmos - tapar areia com os olhos - é, por certo boa ideia utilizá-la para resolver crises, para que a luta contra a crise seja presente e primitiva (reconhecida e justa!). E inocente, inocente como Afrodite, se é que me faço entender sem entendimentos impróprios...
É uma crise de valores, porra! Uma crise de comodidade demasiada, de inercia do tempo das vacas gordas, de falta de inimigo e de inimigos por todo o lado: o sistema reles e mesquinho que adoramos, que nos dá as porcarias tecnológicas para entreter a calma, que nos vende a nós mesmos por meia dúzia de cêntimos (nem tostões são, e viva a globalização), que nos faz sentir civilizados na nossa ignorância.

terça-feira, 7 de abril de 2009

De regresso ao culto de "Tertúlias"

Quando pensamos na forma como se expandiram pelo mundo e pelo país a grande maioria dos movimentos artísticos, literários e filosóficos, de certo que a palavra tertúlia aparece de repente pelo pensamento adentro e as recordações de tempos distante de nós transportam-nos para a Brasileira do Chiado ou Martinha da Arcada, em Lisboa, onde rapidamente nos encontramos discutindo amenamente (ou não) ideias modernistas ou o próximo texto a publicar na revista Orpheu, numa mesa pelas quatro da tarde, com Almada Negreiros ou Fernando Pessoa. Pensar em nomes como estes, juntando-lhes um pouco de Sá-Carneiro ou de Santa-Rita Pintor, relembra-nos a origem do Modernismo Português, maior período da literatura portuguesa do século XX, que nasce exilado, marginalizado, por detrás de ideias debatidas através de reuniões, de conversas, de mesas de café.

Um espírito que se foi perdendo através do stress do quotidiano que nos obriga a substituir a criatividade e rebeldia pela obediência, a liberdade pelo conformismo, os extasiantes quinze anos pelos cinquenta, que comem a gente e a alimenta.

É contra esta monotonia que surge a "Tertúlia dos Gupianos", iniciativa da Livraria Gupi, que realiza uma vez por mês, uma reunião intimista com o objectivo de conversar, num ambiente divertido e informal, sobre um autor, dando ainda a oportunidade a autores desconhecidos de mostrarem o seu trabalho original. Perante os caramelos e amêndoas da época que se aliam ao delicioso café, é sem dúvida um convite absolutamente tentador e uma iniciativa muito bem sucedida de recuperar clássicos, adicionar descobertas, conversar sobre tudo e sobre nada, sorrindo, rindo, levando para casa a recordação de uma tarde bem passada, rodeada de letras, café, sorrisos e caramelos.

Livraria Gupi
R. Luís de Camões, 40-A
1495-081 Algés

Tlf.: 214 109 559